
Você já ouviu isso? “Doutora, o exame deu normal, então está tudo bem, né?” Essa é uma das frases que eu mais escuto no consultório — e, ao mesmo tempo, uma das mais perigosas.
Eu sou a Dra. Bruna de Paula, Pediatra, e preciso te dizer com clareza: seu filho pode ter ferro baixo mesmo com exame “normal”. E isso pode estar impactando diretamente o apetite, o comportamento, o sono e até o desenvolvimento… sem que ninguém perceba.
Se você sente que seu filho come pouco, parece sempre cansado ou está cada vez mais seletivo, este conteúdo pode mudar completamente a forma como você entende a anemia ferropriva.
O que é a ferritina e por que ela é tão importante?
A ferritina é o exame que avalia o estoque de ferro no organismo. Diferente da hemoglobina — que indica uma fase mais avançada da anemia ferropriva — a ferritina permite identificar estágios iniciais da deficiência. Ou seja: é um dos primeiros sinais de alerta.
E isso é fundamental na infância. O ferro participa de funções essenciais como:
- desenvolvimento cerebral
- produção de energia
- regulação do sono
- formação de neurotransmissores
- funcionamento do sistema imunológico
Quando esses estoques começam a cair, o corpo da criança já sente — mesmo antes de uma anemia clássica aparecer.
Valor de referência não é valor ideal
Aqui está um dos pontos mais importantes — e menos explicados. Muitos pais olham apenas para o exame e perguntam: “Está dentro do normal?” Mas existe uma diferença fundamental entre: valor de referência e valor ideal. Os valores de referência são baseados em médias populacionais. Eles mostram o que é comum — não necessariamente o que é saudável.
Por exemplo: a ferritina pode ser considerada “normal” entre 10 e 150 mcg/L. Mas, na prática clínica, muitas crianças já apresentam sintomas importantes abaixo de 30–40 mcg/L. Ou seja: o exame pode estar “normal”… mas o organismo já está em sofrimento.
E nem sempre a deficiência aparece como anemia ferropriva evidente. Na verdade, os sinais costumam ser sutis e frequentemente ignorados. Fique atento se seu filho apresenta:
- cansaço frequente
- irritabilidade
- falta de apetite
- dificuldade para dormir
- pouco interesse por alimentos
- palidez
- infecções recorrentes
- atrasos no desenvolvimento
Muitas vezes isso é interpretado como “fase” ou “birra”. Mas, em muitos casos, existe uma base biológica.

O ciclo silencioso da seletividade alimentar
Esse é um dos pontos mais importantes. A deficiência de ferro não é só consequência da alimentação ruim. Ela também pode ser causa da dificuldade alimentar.
O ciclo funciona assim: ferro baixo -> reduz apetite -> menos comida → menos ferro -> ferro cai mais -> apetite piora. Esse ciclo é extremamente comum em crianças seletivas. E muitas vezes passa despercebido.
E um dos erros mais frequentes que vejo como pediatra é: “Ele não come… então pelo menos toma leite.” Mas o excesso de leite pode:
- reduzir a absorção de ferro
- diminuir o apetite
- substituir refeições
- manter ou piorar a anemia
Ou seja: sem perceber, a família mantém o problema.
Dar ferro é importante. Mas, na maioria dos casos, não resolve sozinho. Porque a deficiência de ferro — e a própria anemia ferropriva — é multifatorial. Ela pode envolver:
- alimentação inadequada
- seletividade alimentar
- rotina desorganizada
- excesso de leite
- baixa absorção
- comportamento alimentar
A seletividade alimentar não é apenas uma fase passageira, como muitos pais acreditam ou esperam que seja. Existe uma tendência de pensar que, com o tempo, a criança naturalmente vai começar a comer melhor, mas na prática isso raramente acontece sem algum tipo de intervenção.
A seletividade segue um padrão: ela se desenvolve ao longo do tempo, se mantém através das experiências do dia a dia e, muitas vezes, tende a se intensificar quando não é abordada da forma correta. Por isso, não estamos falando apenas de preferência alimentar ou “manha” na hora de comer. Trata-se de um comportamento estruturado, que envolve a forma como a criança se relaciona com a comida, o ambiente das refeições e até a dinâmica familiar ao redor da alimentação.
Da mesma forma, melhorar os níveis de ferro da criança não se resume apenas à suplementação. Embora o uso de ferro seja importante em muitos casos, ele não resolve o problema isoladamente quando a base do sistema alimentar está desorganizada.
Para que haja uma melhora real e duradoura, é necessário olhar o contexto completo. Isso envolve ajustar a qualidade e a variedade da alimentação, reduzir o consumo excessivo de leite, organizar uma rotina alimentar previsível, trabalhar a aceitação de novos alimentos de forma gradual e respeitosa, além de diminuir pressões e estratégias inadequadas durante as refeições.
Também é fundamental identificar e tratar a causa da recusa alimentar, que pode ser comportamental, sensorial ou até fisiológica. Quando todos esses fatores são considerados de forma integrada, o cenário muda completamente. A criança passa a ter mais abertura para experimentar, o apetite melhora e os resultados começam a aparecer de maneira consistente e sustentável.

QUANDO É HORA DE BUSCAR AJUDA
Procure orientação se seu filho:
- come pouco
- depende de leite
- já teve anemia
- parece sempre cansado
- tem dificuldade de crescimento
- está cada vez mais seletivo
Quanto antes agir, melhor o prognóstico.
Sou a Dra Bruna de Paula, pediatra e especialista em Seletividade Alimentar Infantil. No consultório, eu acompanho diariamente crianças que não comem, têm exames “normais” mas apresentam sinais claros de deficiência.
E o que transforma o resultado não é uma dica isolada. É um método. Por isso, eu desenvolvi o Método COMER, um acompanhamento estruturado para tratar seletividade alimentar de forma progressiva e individualizada.
O objetivo não é só fazer a criança comer. É construir autonomia alimentar e saúde a longo prazo. E é exatamente isso que aplico dentro do Método COMER.
Seu filho pode sim ter ferro baixo… mesmo com exame normal. E ignorar isso pode impactar diretamente o desenvolvimento. E existe solução. Mas ela não está em uma dica isolada. Está em tratar o sistema completo — como fazemos no meu programa de acompanhamento, no consultório – online ou presencial.
Agora me conta: você já viu um exame “normal”… mas sentia que algo não estava certo? Me conta — eu posso te ajudar a entender melhor.